segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
domingo, 20 de janeiro de 2008
Estórias curtas #2
Ela ficou ainda mais fascinada quando ele virou o corpo e foi em direção a ela. Ele abriu um sorriso, daqueles que chegam a brilhar no meio da escuridão e seus olhos se encontraram e não se largaram, enquanto a distância entre os dois apenas diminuía.
Ele aproximou a boca de seu ouvido, e ela sentiu o sangue borbulhando em suas veias, o coração acelerando e cada partícula do seu corpo em movimento. Ele falou com uma voz firme, que sobressaía em meio ao barulho e perguntou se ela tinha um isqueiro para emprestar.
Infelizmente ela não fumava, e não tinha. Ele agradeceu e foi embora e nunca mais se falaram.
Ele aproximou a boca de seu ouvido, e ela sentiu o sangue borbulhando em suas veias, o coração acelerando e cada partícula do seu corpo em movimento. Ele falou com uma voz firme, que sobressaía em meio ao barulho e perguntou se ela tinha um isqueiro para emprestar.
Infelizmente ela não fumava, e não tinha. Ele agradeceu e foi embora e nunca mais se falaram.
sábado, 19 de janeiro de 2008
Homem
o homem
sem sombra e
sem vulto
sem alma e pudor
era só
um homem
sem esperanças
nem sonhos
sozinho
somente seu mundo
mundo só seu
que ninguém conhecia
que ninguém nunca viu
o homem sem destino
no ônibus se foi
o homem subiu
sem sombra e
sem vulto
sem alma e pudor
era só
um homem
sem esperanças
nem sonhos
sozinho
somente seu mundo
mundo só seu
que ninguém conhecia
que ninguém nunca viu
o homem sem destino
no ônibus se foi
o homem subiu
O mundo só não está menor por falta de espaço.
Esse texto é de 2002, mas ainda gosto dele.
As grandes descobertas são pequenas.
Com exceção dos sacos de pipoca, parece que tudo está diminuindo. Ou pelo menos ocupando menos espaço. Essa onda de "reducionismo" já é antiga e se vê em tudo que é lugar. Os velhos LPs bolachões já foram, há muito, abandonados pela maioria das pessoas em troca dos Compact Discs. E como as coisas não param, além de se reduzir forma, se reduz formato. Surgem, então, coisas como DVD, MP3, DiviX etc. O que já era pequeno está ainda menor. A tecnologia é grande aliada dessa tendência.
Até há pouco, havia um aparelho específico para cada coisa: máquina de escrever, telefone, videogame, calculadora, despertador, máquina fotográfica. Agora existem telefones celulares, menores que canivetes suíços, que possuem tudo isso e mais um pouco.
Na Europa, a grande onda é ter carro pequeno. São muitos e não param de surgir com nomes, no mínimo, sugestivos: Mini, Micra, Smart (que deveria se chamar Small). Parecem miniaturas movidas a gasolina. Os japoneses cobiçam tanto os espaços que já estão construindo prédios em cima do oceano. E existem alguns quartos de hotéis que são legítimas gavetas. O cidadão não é hospedado; é guardado. Assim como os cemitérios, que não ocupam mais metros quadrados, mas andares. As lápides foram trocadas por uma foto 3x4 e um bilhete com o nome do defunto. Já a China é mais radical: as pessoas é que estão sendo reduzidas. Óbvio que ninguém está sendo cortado ao meio (pelo menos por enquanto), mas casal que tem mais de um filho vai preso. E a criança ainda é morta. O fato é que a Terra, que não muda de tamanho, está diminuindo e o espaço está acabando. Cada pequeno espacinho está cada vez mais disputado.
A grande notícia desse início de ano foi a clonagem de um ser humano. O código genético já foi todo decifrado e é possível manipulá-lo no homem quando este ainda é um embrião. E o medo que surge para nós, pobre mortais, é que comecem a ser produzidos seres superiores a nós. Mas como seriam esses superseres? Uma coisa já da pra deduzir: anões.
As grandes descobertas são pequenas.
Com exceção dos sacos de pipoca, parece que tudo está diminuindo. Ou pelo menos ocupando menos espaço. Essa onda de "reducionismo" já é antiga e se vê em tudo que é lugar. Os velhos LPs bolachões já foram, há muito, abandonados pela maioria das pessoas em troca dos Compact Discs. E como as coisas não param, além de se reduzir forma, se reduz formato. Surgem, então, coisas como DVD, MP3, DiviX etc. O que já era pequeno está ainda menor. A tecnologia é grande aliada dessa tendência.
Até há pouco, havia um aparelho específico para cada coisa: máquina de escrever, telefone, videogame, calculadora, despertador, máquina fotográfica. Agora existem telefones celulares, menores que canivetes suíços, que possuem tudo isso e mais um pouco.
Na Europa, a grande onda é ter carro pequeno. São muitos e não param de surgir com nomes, no mínimo, sugestivos: Mini, Micra, Smart (que deveria se chamar Small). Parecem miniaturas movidas a gasolina. Os japoneses cobiçam tanto os espaços que já estão construindo prédios em cima do oceano. E existem alguns quartos de hotéis que são legítimas gavetas. O cidadão não é hospedado; é guardado. Assim como os cemitérios, que não ocupam mais metros quadrados, mas andares. As lápides foram trocadas por uma foto 3x4 e um bilhete com o nome do defunto. Já a China é mais radical: as pessoas é que estão sendo reduzidas. Óbvio que ninguém está sendo cortado ao meio (pelo menos por enquanto), mas casal que tem mais de um filho vai preso. E a criança ainda é morta. O fato é que a Terra, que não muda de tamanho, está diminuindo e o espaço está acabando. Cada pequeno espacinho está cada vez mais disputado.
A grande notícia desse início de ano foi a clonagem de um ser humano. O código genético já foi todo decifrado e é possível manipulá-lo no homem quando este ainda é um embrião. E o medo que surge para nós, pobre mortais, é que comecem a ser produzidos seres superiores a nós. Mas como seriam esses superseres? Uma coisa já da pra deduzir: anões.
Velha
Dona Ernestina cumpria mais uma vez naquela manhã a sua rotina diária. Uma rotina que incorporou voluntariamente desde de o dia em que a vida de seu marido foi levada por um tumor no cérebro. Vestiu meias 3/4 cinza, saia de lã e um casaco de veludo preto, foi para a cozinha e preparou o seu café com o mesmo gosto do mundo a sua volta: amargo. Depois da louça lavada, tirou do armário um punhado de sacos de pipocas, desses que ela costumava comprar de ambulantes no centro da cidade, e desceu os três andares do prédio que a levava até a rua.
O céu naquela manhã, pra variar estava cinzento. Era um daqueles invernos que parecia não ter fim. Mas ela pouco se importava com isso. Tanto faz, sol, chuva, vento, frio, calor... A vida era só um grande compromisso. Foi para a praça, em direção ao mesmo banco em que havia recebido a notícia do falecimento do seu marido alguns anos atrás.
As pombas, que já sabiam dos costumes da velha, já estavam ali, na volta do banco, esperando a chegada dela. A felicidade aparente dos pássaros contrastava com a tristeza sólida da mulher. Ela sentou-se no banco e abriu o primeiro saco de pipocas. As pombas pombejavam em êxtase, numa dança frenética ao redor dos pés da mulher.
Ela atira as primeiras pipocas, alimentando as pombas, num movimento mecânico, repetitivo, despreocupado, desapegado. Vida inútil.
Num instante o silêncio da cena se rompe com um estrondo. Ao longe um poste desaba na rua, árvores se sacodem de maneira inesperada e um ronco nervoso se aproxima da velha numa velocidade incrível. Do meio dos arbustos surge um ônibus em alta velocidade, com uma motorista de olhar esbugalhado e raivoso ao seu controle.
A velha ensaia um pequeno sorriso, mas não tem muito tempo pra isso. O ônibus passa por cima, dela, do banco e dos pombos. Morrem todos. A motorista segue em diante, em busca da sua próxima vítima.
O céu naquela manhã, pra variar estava cinzento. Era um daqueles invernos que parecia não ter fim. Mas ela pouco se importava com isso. Tanto faz, sol, chuva, vento, frio, calor... A vida era só um grande compromisso. Foi para a praça, em direção ao mesmo banco em que havia recebido a notícia do falecimento do seu marido alguns anos atrás.
As pombas, que já sabiam dos costumes da velha, já estavam ali, na volta do banco, esperando a chegada dela. A felicidade aparente dos pássaros contrastava com a tristeza sólida da mulher. Ela sentou-se no banco e abriu o primeiro saco de pipocas. As pombas pombejavam em êxtase, numa dança frenética ao redor dos pés da mulher.
Ela atira as primeiras pipocas, alimentando as pombas, num movimento mecânico, repetitivo, despreocupado, desapegado. Vida inútil.
Num instante o silêncio da cena se rompe com um estrondo. Ao longe um poste desaba na rua, árvores se sacodem de maneira inesperada e um ronco nervoso se aproxima da velha numa velocidade incrível. Do meio dos arbustos surge um ônibus em alta velocidade, com uma motorista de olhar esbugalhado e raivoso ao seu controle.
A velha ensaia um pequeno sorriso, mas não tem muito tempo pra isso. O ônibus passa por cima, dela, do banco e dos pombos. Morrem todos. A motorista segue em diante, em busca da sua próxima vítima.
sábado, 22 de dezembro de 2007
Barata

E não é que tinha uma barata morta no meu banheiro? Não que uma barata fosse atrapalhar a minha vontade de urinar, mas confesso que a minha rotina matinal foi interrompida por aquele corpo imóvel e sem vida.
Barata não morre nem com bomba atômica, então sempre imaginei que elas só morressem quando fossem contaminadas com veneno, ou esmagadas por uma havaianas. Fora isso, no meu imaginário, elas seriam seres quase imortais. E quem disse que não são? Quem disse que aquela barata assustadora que fugiu correndo pra trás da pia, há cinco anos atrás, não é a mesma que foi vista pelo mesmo lugar semana passada? E quem disse que a da minha casa não estava “morando” comigo, pelos últimos sei-lá-quantos-anos, escondida embaixo do ralo? Mas o tempo nem vem ao caso. Eu só queria entender como foi que a barata morreu? Era isso o que me intrigava.
E ainda por cima, morta de cabeça pra baixo.
Moro sozinho, mas isso não significa que meu apartamento tenha tanta sujeira acumulada a ponto de se tornar um ambiente tóxico até para uma barata. Aliás, é tudo bem limpo por aqui. Além disso eu não uso venenos. E muito menos dou chineladas, pra não ter ainda mais sujeira para limpar. É ou não um mistério?
Juntei a coitadinha e depositei o seu corpo um dos lugares que eu tenho certeza que ela iria gostar, a lixeira do papel-higiênico. Acredito até que esse teria sido o seu pedido antes de morrer caso pudesse se comunicar comigo.
Comunicar.
Pensei bem e me dei conta que a palavra-chave do mistério era essa. Comunicar. Faz uns seis meses que moro sozinho, e faz uns seis meses que só venho em casa para dormir. Faz seis meses que quase não vejo a minha mãe. E faz mais tempo que não vejo a minha família. Tenho passado meses sem falar com amigos que não moram tão perto, e mais meses ainda com os que são vizinhos de porta. Ou seja, não tenho me comunicado com ninguém, muito menos com o único ser que mora comigo.
Comecei a procurar algum sinal pela casa, por perto de onde a barata havia morrido, um papel, rabiscos, sei lá. Só havia uma resposta para o mistério. Uma verdade verdadeira e absoluta. A barata estava sofrendo de desgosto, depressão, de tristeza, causados pela solidão. Só podia ser isso. Ela havia subido no balcão da pia e se atirado. Eu procurei por tudo, e não achei nota alguma, mas tive certeza, a barata havia se suicidado.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Estória curtas #1
Era um sorvete de baunilha, pelo menos era o que estava no cartaz. Morango era muito mais doce, e doía-lhe os dentes. Caminhou sozinha segurando aquela casquinha macia, o sorvete derretendo e melecando a mão. Lambia-se, desavisada dos olhos alheios que acompanhavam os passos bailados, de lambidas frenéticas e dentes reluzentes.
Alguém diria que aquilo era uma blasfêmia em movimento. Um, dois. Um, dois. Seguiu desavisada, sem saber que mais adiante algo poderia mudar a sua vida, caso não tivesse atravessado a rua. Juntou um último caco do guardanapo e mastigou extasiada de prazer. Mas ela foi para o outro lado da avenida, o sorvete acabou, ela continuo o seu caminho e nada aconteceu. A história acabou assim, sem muitas novidades. Mas sempre há um amanhã.
Alguém diria que aquilo era uma blasfêmia em movimento. Um, dois. Um, dois. Seguiu desavisada, sem saber que mais adiante algo poderia mudar a sua vida, caso não tivesse atravessado a rua. Juntou um último caco do guardanapo e mastigou extasiada de prazer. Mas ela foi para o outro lado da avenida, o sorvete acabou, ela continuo o seu caminho e nada aconteceu. A história acabou assim, sem muitas novidades. Mas sempre há um amanhã.
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