
E não é que tinha uma barata morta no meu banheiro? Não que uma barata fosse atrapalhar a minha vontade de urinar, mas confesso que a minha rotina matinal foi interrompida por aquele corpo imóvel e sem vida.
Barata não morre nem com bomba atômica, então sempre imaginei que elas só morressem quando fossem contaminadas com veneno, ou esmagadas por uma havaianas. Fora isso, no meu imaginário, elas seriam seres quase imortais. E quem disse que não são? Quem disse que aquela barata assustadora que fugiu correndo pra trás da pia, há cinco anos atrás, não é a mesma que foi vista pelo mesmo lugar semana passada? E quem disse que a da minha casa não estava “morando” comigo, pelos últimos sei-lá-quantos-anos, escondida embaixo do ralo? Mas o tempo nem vem ao caso. Eu só queria entender como foi que a barata morreu? Era isso o que me intrigava.
E ainda por cima, morta de cabeça pra baixo.
Moro sozinho, mas isso não significa que meu apartamento tenha tanta sujeira acumulada a ponto de se tornar um ambiente tóxico até para uma barata. Aliás, é tudo bem limpo por aqui. Além disso eu não uso venenos. E muito menos dou chineladas, pra não ter ainda mais sujeira para limpar. É ou não um mistério?
Juntei a coitadinha e depositei o seu corpo um dos lugares que eu tenho certeza que ela iria gostar, a lixeira do papel-higiênico. Acredito até que esse teria sido o seu pedido antes de morrer caso pudesse se comunicar comigo.
Comunicar.
Pensei bem e me dei conta que a palavra-chave do mistério era essa. Comunicar. Faz uns seis meses que moro sozinho, e faz uns seis meses que só venho em casa para dormir. Faz seis meses que quase não vejo a minha mãe. E faz mais tempo que não vejo a minha família. Tenho passado meses sem falar com amigos que não moram tão perto, e mais meses ainda com os que são vizinhos de porta. Ou seja, não tenho me comunicado com ninguém, muito menos com o único ser que mora comigo.
Comecei a procurar algum sinal pela casa, por perto de onde a barata havia morrido, um papel, rabiscos, sei lá. Só havia uma resposta para o mistério. Uma verdade verdadeira e absoluta. A barata estava sofrendo de desgosto, depressão, de tristeza, causados pela solidão. Só podia ser isso. Ela havia subido no balcão da pia e se atirado. Eu procurei por tudo, e não achei nota alguma, mas tive certeza, a barata havia se suicidado.
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