sábado, 19 de janeiro de 2008

Velha

Dona Ernestina cumpria mais uma vez naquela manhã a sua rotina diária. Uma rotina que incorporou voluntariamente desde de o dia em que a vida de seu marido foi levada por um tumor no cérebro. Vestiu meias 3/4 cinza, saia de lã e um casaco de veludo preto, foi para a cozinha e preparou o seu café com o mesmo gosto do mundo a sua volta: amargo. Depois da louça lavada, tirou do armário um punhado de sacos de pipocas, desses que ela costumava comprar de ambulantes no centro da cidade, e desceu os três andares do prédio que a levava até a rua.

O céu naquela manhã, pra variar estava cinzento. Era um daqueles invernos que parecia não ter fim. Mas ela pouco se importava com isso. Tanto faz, sol, chuva, vento, frio, calor... A vida era só um grande compromisso. Foi para a praça, em direção ao mesmo banco em que havia recebido a notícia do falecimento do seu marido alguns anos atrás.

As pombas, que já sabiam dos costumes da velha, já estavam ali, na volta do banco, esperando a chegada dela. A felicidade aparente dos pássaros contrastava com a tristeza sólida da mulher. Ela sentou-se no banco e abriu o primeiro saco de pipocas. As pombas pombejavam em êxtase, numa dança frenética ao redor dos pés da mulher.

Ela atira as primeiras pipocas, alimentando as pombas, num movimento mecânico, repetitivo, despreocupado, desapegado. Vida inútil.

Num instante o silêncio da cena se rompe com um estrondo. Ao longe um poste desaba na rua, árvores se sacodem de maneira inesperada e um ronco nervoso se aproxima da velha numa velocidade incrível. Do meio dos arbustos surge um ônibus em alta velocidade, com uma motorista de olhar esbugalhado e raivoso ao seu controle.

A velha ensaia um pequeno sorriso, mas não tem muito tempo pra isso. O ônibus passa por cima, dela, do banco e dos pombos. Morrem todos. A motorista segue em diante, em busca da sua próxima vítima.

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