segunda-feira, 26 de maio de 2008

Joseara e seu amor etéreo.

Joseara acordou de susto e percebeu que já estava tarde.

Teria que correr porque o ônibus já estava de saída e aquele era o último da noite.
Juntou as roupas espalhadas pelo chão e iria deixá-lo ali mesmo, dormindo, desacordado. Roncava alto, sonoro, estrondoso. Mas quando se ama na se enxerga, ou se ouve, esse tipo de coisa.

Pobre, feio a ainda roncava. Se pelo menos ele tomasse banho todos os dias.

Parou de pensar nessas sandices e calçou as sandálias. Corria apenas nos dias de promoção relâmpago nos balaios do centro, mas aquela era uma situação de emergência.

Naão era alta, por isso Joseara pulou com o braço esticado, tentando alcançar o dinheiro da passagem que estava na parte de cima da estante, onde Rodinei, seu amado, mantinha seus bens a salvo dos ratos.

Sem sucesso desistiu. O ônibus não iria esperar mais essa aventura esportiva na noite de Joseara. Pegou do bolso da calça de Rodinei três vales-transporte, um para cada condução que teria que usar para chegar até sua casa.

Sem mais enrolação, saiu Joseara porta a fora, sem bilhetes nem beijos de despedida. Rodinei apenas roncava, e as vezes sacudia um pouco a perna esquerda, que era renga.

Enquanto corria, tentando não errar os passos nem os degraus das escadas que descia, pensava e não conseguia entender como podia amar tanto um ser tão triste e sem graça como Rodinei.

Lembrou-se do dia em que eles se conheceram. Ela sentada no banco frio de madeira do posto de saúde onde esperava pelo seu atendimento. Rodinei saia da sala do médico, faixa na cabeça, puxando a perna. Uma marca de costura na testa, e outra no braço esquerdo. Conseqüências de mais uma noite de bebedeiras e brigas. Rodinei prometia ao médico ficar livre de confusões, e assim preservar seus últimos dentes.

Joseara acordou das memórias com o ônibus quase partindo do ponto. Entrou e sentou-se sozinha. Com um sorriso no olhar, pensava em Rodinei e já ia quase morrendo de saudades de seu amado.

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